Archive for 01/09/14 - 01/10/14

Leitura Rápida: Heartbreak

Boa tarde meus queridos!

A Se-chan não está parando não,  e como ando lendo bastante one-shots (não tenho acompanhado muitos mangás em andamento), e ando fazendo postagens sobre obras curtas (como na semana passada e nessa também), resolvi fazer uma categoria mais fixa de postagens falando de coisinhas curtas que são interessantes de se ler.

O trabalho que quero falar hoje é o capítulo único Heartbreak, de Yukimura, lançado na extinta Hikari (por que o pessoal anda lançando tradução de tanta coisa dela só agora que ela parou de ser 
publicada?! >.<). A obra contém 16 páginas e com um clima mais adulto do que normalmente trago para o blog, com questões mais palpáveis e sem aquelas tramas de "conquistar a senpai", ou "idealização de amor". É simplesmente como um relacionamento não fixo se constrói, ou melhor, se afirma.

Sobre a Trama
Maya é uma moça (já adulta), bem feminina e que tem seus sentimentos muito bem definidos. Está amando Eri, sua ficante que prometeu não se envolver em um relacionamento sério. De semana em semana elas se encontram para "matar a saudade", ou talvez seja melhor dizer "para passar a noite juntas". No dia seguinte Eri sempre vai embora sem ressentimentos. Sim, é uma obra NSFW (Not Safe For Work, "Não Seguro Para Trabalho" em português), então cuidado quando forem ler, pois fui imprimí-lo em meu trabalho para ler novamente com mais calma e tive que ficar escondendo a primeira cena de meus colegas. (XD)

Eri,, apesar de estar a 2 anos se relacionando com Maya, nunca propôs namoro algum e não gosta de falar (nem Maya toque) sobre uma tatuagem de pássaro que tem em suas costas. O desenrolar do one-shot se dá quando Eri vê a "razão" de ter sua tatuagem na rua (yep, uma mulher, óbvio! XD) e não quero dar spoilers sobre o final, por mais que ele seja óbvio. Mas é fofo.

Eu sinceramente achei as duas personagens muito realistas e bem construídas. É uma obra que conta uma história que provavelmente já aconteceu com VÁRIAS pessoas. O traço é muito bonito (foi a razão de eu ter começado a lê-lo), tem uma densidade muto interessante.

Aconselho a todos ler. Seria interessante ver o pessoal ler algo assim, quero ver a reação de todos nos comentários!

Sei que a postagem não foi muito grande, mas quero que essas postagens sejam mais para aconselhar esse tipo de "leitura rápida", como coloquei no título da mesma.

Por favor, se possível curtir no Facebook e retweetar no Twitter a postagem para ela se espalhar!

Até logo! o/
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Posted by Se-chan

Fragilidade (Clarisse e Alex parte 4)

Olá a todos! Cá estamos mais uma vez, agora trazendo a quarta parte da história de Clarisse a Alex (que já está bem mais para minissérie do que para contos, vamos concordar). Gostaria, antes de mais nada, de deixar meu agradecimento a todos os que tem acompanhado esta singela história.

Nesta parte a trama vai começar a entrar em seu momento de tensão mais evidente, ainda que esta presente parte seja apenas o início dessa reviravolta para a trama das duas antigas colegas que nunca confessaram a paixão mútua que sentiam.

Fragilidade. . . Esse título já diz muito sobre o enredo.

Boa leitura a todos! Como sempre, críticas e comentários são sempre bem vindos. Tentaremos sempre melhorar dentro do possível e plausível.



Fragilidade
por Lilian Kate Mazaki


O clima estava ótimo na tarde daquele sábado. Para Clarisse tudo parecia ainda melhor agora que enfim a edição especial de final de ano estava encerrada e encaminhada para a gráfica. Qualquer encrenca agora iria ser tratada apenas pelo departamento de diagramação, não mais edição, então ela poderia enfim respirar e voltar a desfrutar da sua rotina mais calma. A redatora chegava a sentir-se um tanto perdida enquanto caminhava despreocupada por um lado da cidade pouco conhecido seu, de repente livre de todas as pressões de antes. Uma paz não tão verdadeira, pois desaparecia cada vez que ela se recordava do que a levara àquela avenida.
Não demorou muito para avistar o discreto letreiro próximo a uma movimentada esquina. Lia-se "Vintage - Cafeteria" e ela teve certeza de ter encontrado o local correto. A fachada, com textura de madeira e vidros escurecidos não poderia ser encontrada duas vezes naquelas redondezas, tinha certeza. Quando entrou o badalar da pequena sineta à porta misturou-se ao som ambiente, um jazz distante, imergindo seus sentidos de imediato ao clima do estabelecimento.
― Boa tarde, seja bem vinda. ― cumprimentou uma mulher jovem do outro lado do balcão também bem caracterizado.
― Olá, boa tarde. ― respondeu Clarisse. ― Por acaso saberia me dizer se tem alguém me aguardando? Meu nome é Clarisse.
― Oh, claro. ― afirmou a garçonete, abrindo um sorriso mais natural. ― Uma moça está aguardando sua chegada a uma meia hora, mais ou menos. Pode subir as escadas, ela está em uma mesa ao fundo. Logo irei até vocês para anotar seus pedidos.
― Está bem. Obrigada. ― agradeceu Clarisse, dirigindo-se às escadas indicadas pela funcionária.
O segundo piso do estabelecimento era bastante comprido, tomado por diversas mesinhas quadradas e alguns televisores nos cantos das paredes. Imagens do que parecia um filme dos anos 70 eram exibidos nas telas, sem áudio. Não foi difícil encontrar Alex, pois ela era a única ali, sentada de lado para a entrada, distraída com um tablet. O nervosismo borbulhou no estômago de Clarisse nos segundos que levou para alcançar a mesa:
― Alex? ― chamou, incerta.
― Hm? Ah, Clarisse! ― exclamou a fotógrafa, despertando da imagem no seu portátil. ― Senta, eu só estava terminando de checar uns e-mails de uns freelas aí. ― explicou.
― Ah sim. ― disse Clarisse, sentando-se de frente para a outra.
Logo a garçonete apareceu para anotar os pedidos. Clarisse pediu um capuccino sem teçer comentários, já Alex fez questão de comentar como ouvira falar daquele lugar:
― Sabe, foi uma amiga que me indicou este lugar. Ela me disse que sempre vem aqui no meio da semana. ― disse enquanto vasculhava o cardápio.
― É mesmo? Ficamos sempre felizes em ver nossos clientes falando sobre o "Vintage" para seus conhecidos. ― comentou a garçonete que chamava-se Suzie. ― Espero que vocês gostem e também se tornem nossas frequesas regulares. Temos algumas programações especiais nas noites de sexta. Depois trago os folders para vocês.
― Obrigada, Suzie. ― agradeceu Clarisse.
― Sei que vamos gostar. A Jenifer tem um ótimo gosto. ― disse Alex, devolvendo o cardápio. ― Eu vou querer uma soda natural, por favor.
― S-Soda? Claro, já trago o pedido de vocês. ― disse a garçonete saindo apressada. Teria sido impressão de Clarisse ou algo a tinha incomodado?
― Então essa é a Suzie. . . ― comentou Alex.
― Você já a conhecia? ― perguntou Clarisse, intrigada.
― Não. É que a Jenifer disse que estava tentando convidar "a Suzie do Vintage" para sair. ― explicou Alex, com um sorriso de divertimento, ainda fintando o local onde a outra desaparecera para o andar inferior.
― Ah. . . ― Clarisse tentou não parecer tão surpresa quanto realmente ficou ao ouvir aquele comentário.
Clarisse acabou perdendo boa parte da sua parca capacidade de tomar iniciativa durante os minutos em que as duas esperaram suas bebidas. Depois de servidas e novamente sozinhas foi Alex quem resolveu quebrar aquele silêncio precoce:
― Então, aliviada com o final da edição? ― perguntou a fotógrafa.
― Sim. ― respondeu Clarisse, mas percebendo que iria soar muito seca se só dissesse aquilo emendou. ― Mais uma semana e acho que teria um colapso.
Alex riu do comentário:
― Acredito. Foi a primeira vez que fez esse tipo de trabalho como assistente direta do editor-chefe, não?
― Sim, foi inesperado.
― O Valter parece um tiozinho bacana, mas deve saber ser chato quando os prazos são curtos. ― supôs Alex, franzindo a testa e voltando os olhos para o alto, numa guisa cômica de reflexão que arrancou uma risada da outra.
A conversa das duas começou a fluir melhor conforme foram esvaziando suas bebidas. Logo várias histórias cômicas da faculdade surgiram para fazê-las esquecer a seriedade. Não havia como manter a compostura quando diversas confusões envolvendos as duas e Ricardo, geralmente impulsionadas pelo álcool, eram relembradas. A certo ponto Clarisse sentiu que poderia mudar um pouco o foco da conversa:
― Então, como foram esses anos fora? ― perguntou ela.
― Ah. . . ― começou Alex, parecendo buscar a melhor maneira de se expressar. ― Acho que posso resumir dizendo que foi tudo o que eu precisava. ― disse.
― Dizem que passar um tempo longe de casa nos faz amadurecer. ― comentou Clarisse.
― Por aí. ― concordou a fotógrafa. ― Digamos que eu precisava de espaço para me descobrir e me entender.
― É mesmo?
― Uhum. Logo que cheguei lá conheci a Jenifer e, bom, ela me deu uma grande ajuda, podemos dizer. ― disse Alex, com um tom sugestivo.
― Vocês duas. . .
― Sempre tivemos uma amizade colorida, se é isso que quer saber, Clari. — disse a morena, sem meias palavras. ― Não que ela tenha sido a única. Fomos juntas a muitas festas lgbt nas cidades vizinhas e eu conheci muita gente.
― Ah sim. ― disse Clarisse, desconfortável.
― O Ricardo nunca te convidou para alguma festa dessas? ― perguntou Alex.
― Algumas vezes, mas nunca aconteceu de eu ir mesmo. ― respondeu Clarisse, encarando a taça de capuccino com mais dedicação do que o necessário.
― Hm. . .
Clarisse sentiu toda a sua coragem esvair com aquele rumo de conversa. Alex percebeu com clareza o que passava com a outra, mas não tinha mais a paciência de outrora para fazer um movimento de recuo. Ao invés disso ela decidiu seguir com a conversa para onde realmente queria chegar:
― Sabe, às vezes eu paro para pensar como tería sido se eu não tivesse me mudado. ― disse, sem tirar os olhos da outra, que parecia agora decidida a observar a decoração ao invés de retribuir-lhe.
― É uma dúvida que nunca poderemos esclarecer, não é mesmo? ― falou Clarisse.
― Verdade. ― concordou Alex, a voz um pouco mais rígida do que gostaria. ― Mas agora temos a chance de saber o que acontecerá agora que voltei.
Clarisse engoliu saliva e umideceu os lábios:
― Não sei se quero saber, na verdade. ― disse, enfim encarando de volta a outra. Alex ergueu as sobrancelhas.
― Como assim?
― É que. . . ― começou a jornalista, ansiosa. ― Me assusta um pouco, depois de todos esses anos, pensar em reviver algumas coisas que nunca fui capaz de entender.
Era aquilo, pensou Alex. Estava enfim falando do que de fato havia as trazido até ali. A fotógrafa não esperava ouvir algo tão sincero assim da outra, mas não iria perder o foco:
― Você é do tipo de pessoa que prefere ficar sempre presa ao que já entende? ― perguntou.
― Talvez. ― confessou Clarisse, desviando o olhar para o restante do seu capuccino. ― Se eu não fosse tão covarde não teria ficado aqui todo esse tempo.
― Como assim? ― perguntou Alex pela segunda vez, novamente surpresa.
― Logo que eu e o Ricardo entramos na editora surgiu uma vaga no interior. Eu queria ter aceitado aquela vaga. Pensei em como você ficaria surpresa quando me visse. Mas então. . . Eu me acovardei.
"Pensei na saudade que meus pais iria sentir se eu estivesse longe. Não poderia deixá-los, foi o que pensei." disse Clarisse, sem conseguir esconder a amargura na voz e no olhar, agora perdido em uma das telas onde um filme em preto e branco agora era exibido.
"Eu também tinha um namorado, estávamos quase a um ano juntos. Estranho que uma semana depois de perder aquela vaga eu chutei ele quando ele me pediu em casamento."
― Clari. . . ― disse Alex, tentando digerir aquelas revelações.
― Engraçado que até pouco tempo atrás eu lembrava com amargura dessa ocasião e sequer era capaz de entender o motivo de tanto remorso. ― continuou a redatora, ainda com a voz pesada.
Por um momento Alex ficou sem reação àquilo. Seguindo apenas o instinto ela esticou a mão direita, colocando-a sobre a esquerda de Clarisse que pareceu despertar pelo toque, a encarando:
― Chega. Isso já passou. ― disse Alex.
― Isso já, mas. . . ― Clarisse desvencilhou a mão e levantou, para o temor da outra. ― Eu ainda continuo sendo a mesma pessoa covarde daquela vez. Sinceramente, Alex, não sei como sair desse labirinto onde me enfiei.
Antes que pudesse reagir, Alex viu Clarisse desaparecer na escada. A jornalista sequer despediu-se da garçonete sempre simpática e saiu fechando a porta do Vintage com um pouco mais de força do que o necessário. No andar de cima, tendo apenas o som fraco do jazz aos ouvidos, Alex sentou e bateu os punhos com força no tampo da mesa:
― Agora eu estou aqui, sua idiota! ― rosnou ela, frustrada, ao vazio do ambiente acolhedor da cafeteria.

terça-feira, 23 de setembro de 2014
Posted by LKMazaki

Indicação: Even e Step In

Bom dia minha gente querida!

Depois de um tempinho impedida de postar por motivos de trabalhos, a Se-chan volta com mais uma indicação para os lindos leitores de shoujo-ai do KaS!


Desta vez a redatora aqui leu dois one-shots que se complementam. Even e Step In podem ser lidos separadamente (tanto que o primeiro que li foi Step in, o que seria a segunda parte), o que facilita para quem quer só dar uma olhada em um, pois você não fica com tanta sensação de "faltando algo" depois de ler. Eles foram publicados na extinta Hikari e quem desenhou foi a(o) Miman.


Tanto Even quanto Step In tem foco na mesma garota, Chitose, uma tsundere básica que na cena de abertura (uma lembrança da infância), na divisão de um corte de bolo se "adona" de sua amiga Nao (cabelos curtos e levemente tomboy) por esta ficar com um soldadinho que vinha junto no bolo. Sim, exatamente isto: Nao "pertence" a Chitose naquele momento.

A história gira em torno disto, e se passa no presente, quando as duas garotas chegam ao ensino médio, onde Nao se destaca na equipe de basquete da escola e que entrou junto da sua amiga de infância (que não tem sucesso nenhum no clube).

Chitose entra em crise, achando que Nao está muito mudada e que não dá bola mais para ela e nem as "lembranças" das duas (aka pertencer a ela). O final de Even e Step In inteiro passa pelo fato de Nao revelar que leva a sério aquela promessa, o que é levemente bizarro, mas interessante no decorrer da história.

Sobre as personagens, Chitose é um tanto chatinha, e achei idiota dela achar a outra mudada só por agora estar mais independente e fazer mais sucesso que ela. Nao ainda vai para casa junto da Chitose e sempre recusa as investidas das menininhas, não entendo por que a de cabelos escuros tem esses surto!


No final, não é que seja uma história muito inovadora, mas o traço dos one-shots é muito bonito e o jeito que demonstra a "evolução" (não chamaria exatamente disto mas...) é bem legal. No final, são duas garotas bem normais que estão ainda crescendo. Acho que esse é o interessante da obra.


Bom, essa postagem era mais para indicar mesmo o mangá, pois achei bonitinho e tinha que compartilhar mais esse tipo de coisa com vocês.

Então me digam se querem mais indicações assim ou se querem apenas analises mais aprofundadas de mangás/séries/filmes. Gostaria de ver a opinião de vocês nos comentários se possível! E se tem algo para indicar para o KaS, por favor nos diga! (pode ser mangá, live action, filme, série. Vale tudo!)

Não se esqueçam de curtir o KaS no Facebook, Twitter ou Assinar na barra ao lado para receber as postagens em sua timeline ou diretamente no e-mail.

Obrigado pessoal!

Até logo! o/
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Posted by Se-chan

[Conto] Para além das tolas vontades (Clarisse e Alex pt3)

Olá a todos! Cá estamos com a terceira parte da história de Clarisse e Alex aqui no Kono-ai-Setsu. Gostaria de agradecer ao feedback positivo nos comentários e diretamente a mim nas redes. Todos vocês que deixam opiniões me motivam muito a trazer mais partes da história.

Sobre esta terceira parte acredito de verdade que seja uma das menos empolgantes da história inteira, mas é também fundamental para formar todo o contexto do enredo envolvendo Alex, a fotógrafa descolada, e Clarisse, a redatora com uma capacidade gigantesca de enganar a si mesma sobre seus sentimentos.

De qualquer modo, espero que apreciem mais esta história. Daqui a duas semanas, tem mais.

Boa leitura!



Para além das tolas vontades
por Lilian Kate Mazaki




Tiago Siqueira era um jovem e promissor advogado. Trabalhava nove horas por dia no escritório montado por seu pai, a mais de vinte anos. Seus ternos estavam sempre alinhados e sua mesa mantinha-se limpa e organizada. Seus arquivos digitais e físicos eram os mais bem estruturados do escritório e sua secretária era a mais jovem entre as três que serviam aos atuais seis advogados da associação. Sempre sério e observador em ambiente de trabalho era também um homem saudável, praticante amador de tênis ao qual se dedicava pelo menos em três ocasiões da semana. Seu pai, falecido a alguns anos, sentiria orgulho dele, tinha certeza. Um profissional competente que nos fins de semana visitava a mãe e irmã no interior.
Um homem perfeito, ou quase.
A grande frustração de Tiago era a vida amorosa. Depois de uma juventude cheia de idas e vindas ele enfim havia se apaixonado e vivido o amor, aos vinte e dois anos. Uma mulher inteligente e de bom gosto, bela e gentil que o encantara de todas as formas que é possível fazer a um homem. O advogado planejou pedí-la em casamento, mesmo que eles mal tivesse completado um ano de namoro. Para ele não haviam motivos para esperar pois não seria possível encontrar tal sentimento de admiração novamente por outro alguém. Porém isso não dependia apenas da sua vontade.
Clarisse recusara seu pedido de casamento. Mesmo ele tendo se preocupado em levá-la ao restaurante mais caro e romântico da cidade, pedido o melhor vinho e escolhido a mesa mais discreta. Ela não apenas recusara como também rompera o relacionamento deles na sequência.
Tiago jamais esquecera o momento. Clarisse falara qualquer coisa que soara como um “não é você, mas eu não estou pronta para isso”, levantara e dissera “melhor pararmos com isso por aqui” e saira sem dizer mais nada. Não havia sequer lamentação nos olhos daquela que ele já considerava o grande amor da sua vida.
Mesmo que já tivesse passado quase três anos desde aquela noite de fracasso ele ainda se perguntava onde afinal havia errado. Seria sua culpa que as coisas tivessem terminado daquela maneira tão abrupta?
― Tiago? Você tá dormindo, cara? ― chamou uma voz distante. ― Cara?
Tiago despertou das suas lembranças. Levou alguns segundos para reconhecer o barzinho e também o homem sentado no banco do outro lado da mesinha de madeira. Ricardo o observava com uma expressão perplexa:
― Ah, desculpa. ― disse ele finalmente. Só então suas lembranças de ter chamado o antigo conhecido para tomar umas cervejas. ― Eu acabo ficando meio distante quando lembro desse assunto.
― Se você fica mal quando pensa no que aconteceu, por que me chamou aqui para falar da Clarisse de novo? ― perguntou Ricardo, servindo o copo já vazio do advogado. Aquela era apenas a segunda cerveja que tomavam.
― É que eu não consigo esquecer! Eu preciso entender para conseguir superar! ― exclamou Tiago, pegando o copo e bebendo todo o conteúdo de uma só vez. Ricardo suspirou e o serviu de novo antes de pegar seu próprio copo.
― Olha, eu já tô cansado dessas suas lamentações infinitas. ― começou Ricardo, com a testa franzida. ― Já fazem o que? Quatro anos? A Clarisse já teve meia dúzia de outros namorados e você ainda está lamentando aquela noite!
― Eu sei que você é a única pessoa que pode me esclarecer tudo o que aconteceu, Ricardo. ― acusou Tiago, apontando o indicador para o outro. ― Você é o “melhor amiguinho viado” da Clarisse. É óbvio que você sabe tudo sobre ela!
― Cara. . . ― começou Ricardo, perdendo a paciência bem rápido. ― Não me importo que me chame de viado, afinal é verdade. Só não use essa palavra com esse tom debochado.
― Desculpa, desculpa! Tô só irritado! Só isso! ― esbravejou Tiago, desabotoando os punhos da camisa com irritação. Porém ele já havia feito o jornalista perder o controle sobre as palavras.
― Pra começar nós dois nos conhecemos numa festa gay, você deve se lembrar muito bem. Então não é nem justo ficar me chamando de viado assim quando você não é muito diferente!
― Pera lá! ― Tiago também estava perdendo os limites da conversa. ― Isso faz muito tempo! E eu era bi, não gay. Tanto que o amor da minha vida é a Clarisse! Faz tanto tempo que não fico com um cara que estou quase “prescrevendo” desse meu lado.
Ricardo deu uma risada rouca quando ouviu aquilo. Foi uma sorte, pois isso aliviou também um pouco da sua raiva, substituindo pela vontade incontrolável de destruir algumas ilusões do outro:
― Você é a bicha mais sem noção que eu já conheci, Tiago. Tão cega que não é capaz nem de perceber que ninguém deixa de ser viado por “falta de prática” nem de entender de uma vez por todas que você nunca foi o “lance” da Clarisse. ― explodiu Ricardo, falando com o maxilar apertado.
― Opa, opa, opa! O que você disse?! ― surpreendeu-se Tiago, despertando da sua exasperação, tamanho o sobressalto.
― Sobre você ser uma bicha?
― Não! Sobre a Clarisse!
Foi então que Ricardo deu-se por conta do que dissera e numa reação automática deu um tapa na própria testa. Se tinha um defeito que ele não possuia era o de ser fofoqueiro, porém toda a sua lealdade havia desmoronado em um instante de fúria. Agora o estrago estava feito:
― Anda, explica isso aí, Ricardo. ― exigiu Tiago.
― Cara. . . ― começou Ricado, coçando atrás da orelha e se enclinando para trás. O redator considerou em sair correndo, porém sabia que o outro tinha o físico muito mais preparado e terminaria por alcançá-lo. ― A Clarisse é completamente gay. As únicas pessoas que ainda não sabem disso são você e ela mesma.
― A Clarisse. . . ― começou Tiago, a boca ficando aberta à guisa de espanto, sem que ele conseguisse concluir a frase. ― Ela. . . Ela. . . Mas. . . Não pode.
― Como assim “não pode”? ― estranhou Ricardo, erguendo uma das sobrancelhas.
― Nós transamos várias vezes. ― disse Tiago, usando um argumento que fez as entranhas do outro revirarem em revolta.
― E parece que ela curtiu tanto que te dispensou sem nem pensar duas vezes. ― atacou Ricardo. ― Se liga, cara!
Tiago balbuciou mais uma série de coisas desconexas, parecendo não conseguir formar um novo argumento sem que algo o destruísse antes de ele poder enunciá-lo. Ricardo aproveitou o momento para esfriar um pouco a cabeça com um copo de cerveja e então retomou a conversa com mais paciência:
― Tem gente como você, Tiago, que fica plenamente satisfeito com as duas coisas. ― disse o redator, sentindo-se um professor de Ensino Fundamental, da aula de sociologia ou qualquer coisa semelhante. ― Mas tem gente como nós, eu e a Clarisse, que mesmo que façam com alguém do outro sexo e mesmo gostando, sempre vai sentir que tem alguma coisa errada. É por isso que somos o que somos.
― Você disse que ela não percebeu isso, não disse? ― perguntou Tiago, enfim conseguindo articular uma sentença completa.
― Na real ela é muito boa de se enganar, é o que eu acho. Às vezes sinto vontade de jogar a verdade, mas fico preocupado com a reação dela. ― confessou Ricardo. ― Me preocupo mesmo. Quanto mais o tempo passar mais difícil pode se tornar pra ela aceitar. A gente vai envelhecendo e adquirindo os preconceitos do mundo.
― E eu nunca suspeitei. ― disse Tiago, parecendo mergulhado mais uma vez em seus devaneios. Estava tentando recordar de qualquer situação onde poderia ter ficado evidente aquele fato, mas nada lhe vinha ao pensamento.
― Será que agora você é capaz de desencanar? ― perguntou Ricardo, depois de acenar para o balcão do bar pedindo mais uma cerveja.
― Acho que sim.
― Sério? Você é mesmo pragmático. ― surpreendeu-se o jornalista.
Os dois homens continuaram bebendo até esvaziarem a terceira garrafa. Não conversaram muito nesse meio tempo. Ricardo permitiu ao outro vagar por sua lembranças em busca de comprovações. Na verdade ele mesmo estava um tanto perdido em devaneios, enquanto fintava o advogado sem disfarce. Quando terminou o último gole de bebida, Ricardo sem aviso levantou-se e atirou algumas notas no centro da mesa, pagando sua parte na conta:
― E sobre aquilo de “prescrever”, acho que você só ainda não encontrou um cara legal que vai te tirar da linha heteronormativa de vez. ― disse, virando e saindo sem se despedir.






Os dias estavam ficando mais quentes com a aproximação do verão. Nas ruas as decorações de natal já começavam a ser vistas. O calendário do comércio era pontual em começar suas campanhas, na segunda-feira seguinte ao Dia das Crianças.
Clarisse estava atribulada com todas as tarefas inesperadas que recebera. Com a saída de um importante editor por motivos de saúde o seu chefe direto havia sido promovido e a redatora, uma das suas pessoas de confiança, ganhara uma série de responsabilidades com relação à edição especial de final de ano da Revista. Ainda que ela estivesse feliz pela oportunidade o peso das novas responsabilidades como assistente direta do novo Editor Chefe estavam a desgastando em demasia.
“Woa! Isso está ótimo, Alex!” Clarisse ouviu a voz familiar do chefe exclamar do outro lado da redação. Sem perceber a redatora parou a escrita de um e-mail e virou o olhar para enxergar o que acontecia. Ela viu a fotógrafa e o editor sentados à mesa deste:
― Sem falsos elogios, Valter. ― disse Alex.
― Não é falso. Era exatamente o que estávamos procurando para a capa. ― disse Valter, um homem de meia idade e já um pouco calvo. ― Só um instante. ― disse, vasculhando com os olhos a redação. Para a surpresa de Clarisse ele sorriu quando cruzou os olhos com os dela. ― Clarisse! Vem aqui mulher! Temos uma nova capa!
Clarisse levantou e cruzou entre as baias o mais rápido possível, apesar do desconforto. Já fazia quase um mês desde que Alex assumira sua função como fotógrafa na editora, porém as duas mal tinham trocado alguns pares de cumprimentos naquele meio tempo. A presença da amiga ainda era algo que desconsertava Clarisse um tanto. Ainda assim esta tentou parecer o mais profissional o possível quando chegou até Alex e Valter:
― Clarisse. Dá uma olhada nisso aqui. ― disse Valter, passando uma folha para a assistente e redatora. ― Me diz se não é perfeito!
― Está ótimo mesmo. . . ― disse Clarisse, observando os detalhes da imagem. ― Você fez a edição, Alex?
― Ah, sim. A gente tem que saber se virar com essas coisas, pra não ficar tão dependente dos designers. ― disse a fotógrafa, sorrindo.
― Está decidido. Não vou fazer outra reunião só para isto. ― sentenciou Valter, animado.
― Mas, senhor, a capa já não havia sido aprovada? Não acho que o Gustavo vá gostar de ser tirado assim. ― alertou Clarisse.
― Ai, ai. Eu sei disso, Clarisse. ― disse Valter, franzindo a testa. ― Eu mesmo vou falar com o Gustavo. A questão é que não podemos deixar de usar uma arte melhor por causa do ego de um dos nossos artistas. Ele é ótimo e vai ter muitas outras capas no futuro.
― Eu só estava alertando, senhor. Também acho que devemos usar esta. ― corrigiu-se Clarisse. Mesmo sem virar-se ela pode sentir o olhar de Alex sobre si quando disse isto.
― Certo, certo. Obrigado por isto, Clarisse. ― disse Valter. ― Alex, deixe-me cumprimentá-la por sua primeira capa logo no primeiro mês conosco! ― completou ele, estendendo a mão que foi prontamente correspondida pela fotógrafa.
― Muito obrigada, Valter. Valeu mesmo! ― disse Alex, só sorrisos.
Percebendo o final da mini-reunião, Clarisse despediu-se e saiu da redação para ir à pequena sala anexa, onde ficava o café. Àquela hora, pouco antes do almoço, o local costumava estar vazio. Depois de servir-se de uma dose generosa da bebida, a redatora recostou-se ao lado da janela e desfrutou um pouco da brisa do exterior. Ela estava de costas para a porta quando ouviu o estalo desta ao ser aberta:
― Ah, você está aqui.
Clarisse virou o rosto na direção da entrada ao perceber a voz de Alex. A fotógrafa deixou a porta atrás de si fechar antes de mexer-se:
― Oi, de novo. ― cumprimentou Clarisse, acenando com o copo. Alex foi até a cafeteira para servir-se. Nenhuma das duas falou até a fotógrafa apoiar-se também na janela para observar a paisagem urbana.
― Você anda bem cheia de serviço, não é? ― comentou esta.
― Pois é. Espero que meu contracheque seja correspondente a essa trabalheira. ― disse Clarisse. Alex deu uma risada desse comentário.
― Ainda acho que você e o Valter estão conspirando para tentar aumentar meu ego. Capa logo no primeiro mês. . .
― Nada disso. Eu achei sua imagem excelente. Não sabia que você editava naquele nível. ― confessou Clarisse com sinceridade. A outra nada respondeu a isto, mas deixou escapar um sorriso orgulhoso.
O silêncio predominou novamente enquanto ambas apreciavam as bebidas. Clarisse foi a primeira que terminou o café e num movimento atirou o copo descartável na lixeira discreta ao lado do pequeno balcão onde estava a cafeteira. Alex parecia estar esperando aquele momento:
― Então, Clarisse, eu estava pensando. . . ― começou a morena, ainda observando a paisagem. ― Será que você não quer dar umas voltas qualquer dia desses? Desopilar dessa montanha de serviço. ― convidou Alex. Clarisse gaguejou alguma coisa antes de responder.
― Quem sabe, né, seria bom. A gente fala com o Ricardo. Ele conhece uns lugares muito bons. ― comentou Clarisse transparecendo um tanto de nervosismo.
― Não. ― cortou Alex.
― Não? ― repetiu Clarisse, sem entender. A morena então tirou os olhos dos prédios e encarou a expressão interrogativa da outra.
― Quis dizer que nós duas poderíamos dar umas voltas. ― explicou Alex, a expressão séria, encarando os olhos amendoados de Clarisse sem sequer piscar.
― A-Ah. . . ― murmurou Clarisse, em entendimento.
― Tem uma cafeteria na zona norte que parece ótima. Uma amiga me indicou. ― comentou a fotógrafa, desanuviando um pouco a expressão.
― Sei. . . ― disse Clarisse, parecendo atordoada. ― B-Bom, então depois combinamos! Só me passar uma mensagem mais tarde que a gente vê os detalhes, ok? ― continuou ela, ajeitando-se com pressa e tomando o caminho da porta.
― Clarisse.
― Sim? ― perguntou esta, virando-se.
― Você não me passou seu número ainda. ― Alex pareceu divertir-se diante do nervosismo óbvio de Clarisse.
― É mesmo! Também não tenho o seu. ― disse Clarisse, sacando o celular. As duas trocaram os números e a redatora saiu dando apenas uma guisa de “até depois”.
Para Alex foi o suficiente.

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